Cantareira registra 53,7% menos chuvas do que a média para o outono

Cantareira registra 53,7% menos chuvas do que a média para o outono

  • Cantareira registra 53,7% menos chuvas do que a média para o outono


Vista da Represa do Cantareira, localizada na cidade de Piracaia, no interior de São Paulo, na tarde do domingo, 13 de junho de 2021. O Sistema Cantareira está em nível de alerta, com baixo volume de água. Com o fim do período das chuvas, a recomendação dos especialistas é para a população economizar água — Foto: LUCIANO CLAUDINO/CÓDIGO19/ESTADÃO CONTEÚDO

Vista da Represa do Cantareira, localizada na cidade de Piracaia, no interior de São Paulo, na tarde do domingo, 13 de junho de 2021. O Sistema Cantareira está em nível de alerta, com baixo volume de água. Com o fim do período das chuvas, a recomendação dos especialistas é para a população economizar água — Foto: LUCIANO CLAUDINO/CÓDIGO19/ESTADÃO CONTEÚDO

O outono terminou nessa segunda-feira (21) com menos chuvas do que a média nos principais reservatórios que abastecem a região metropolitana de São Paulo. No Sistema Cantareira choveu 53,7% a menos do que a média histórica, de acordo com dados da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp).

Com isso, o reservatório termina a estação com um volume 6,5% menor do que no início da estação, em 20 de março. No primeiro trimestre deste ano, o volume de chuva na região que abastece o Sistema Cantareira foi o mais baixo desde o final da crise hídrica, em 2016, e ficou abaixo do registrado no primeiro trimestre de 2013 (leia mais abaixo).

Outros reservatórios que abastecem a região metropolitana de São Paulo também tiveram déficit de chuvas em relação às médias históricas do outono. O Alto Tietê termina o outono com um volume de água 6,5% menor do que no início da estação e o Guarapiranga, com 12,3% menos água.

A estiagem nas estações outono e inverno são esperadas, já que é um período tradicionalmente mais seco. O problema é que o verão do início deste ano também foi mais seco em relação à média histórica e os reservatórios começaram o período menos chuvoso com menos água armazenada.

Sistema Cantareira tem déficit de 53,7% de chuvas no outono em relação à média histórica

MêsChuvas em 2021 (mm)Média Histórica (mm)Porcentagem real de chuva em relação à média histórica
Março152,3176,286%
Abril983,111%
Maio37,377,448%
Junho* (até o final do outono)12,957,123%

Primavera e verão

A tendência é a de que a primavera e o verão deste ano também sejam mais secos, de acordo com prognóstico feito pelo pesquisador Pedro Luiz Côrtes, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP. O risco, de acordo com ele, é de crise de abastecimento em 2022.

“Conforme prognosticado, o outono foi uma estação muito mais seca do que o normal. Essa tendência se mantém para o segundo semestre e reforça a necessidade de economizarmos água e energia elétrica", afirma Côrtes.

Efeitos da estiagem

Além da falta de água nas torneiras de casa, da conta de luz mais cara e do risco de apagão, a seca pode ter impactos significativos na economia brasileira.

Os paulistanos já tiveram a oportunidade de vivenciar uma crise hídrica com racionamento e desabastecimento de água entre 2014 e 2015. No final de maio de 2014, o volume do Sistema Cantareira atingiu 3,6% de sua capacidade, e a Sabesp passou a operar bombeando água do chamado volume morto.

Trata-se de uma reserva com 480 bilhões de litros de água situada abaixo das comportas das represas do Cantareira. Até então, essa água nunca tinha sido usada para atender a população. Em outubro do mesmo ano, o volume do Cantareira chegou a 3,6%.

Só o Cantareira abastece, por dia, cerca de 7,5 milhões de pessoas, ou 46% da população da Região Metropolitana de São Paulo, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), órgão que regulamenta o setor.

No primeiro trimestre deste ano, o volume de chuva na região que abastece o Sistema Cantareira foi o mais baixo desde o final da crise hídrica, em 2016, e ficou abaixo do registrado no primeiro trimestre de 2013.

Há pelo menos 10 anos o Cantareira tem tido déficit no volume de água armazenado. Em 2010, o sistema operava com 99,6% de sua capacidade, em média. De lá para cá, muitas obras foram feitas pela Sabesp e o Cantareira passou a ser abastecido por mais fontes, mas, mesmo assim, o armazenamento só cai. Em 2020, a média foi de 64,3%,

Nos últimos 10 anos, somente em 2015 o Sistema Cantareira apresentou superávit de chuvas em relação à média histórica. Em todos os outros anos houve déficit de chuvas, como mostra o gráfico a seguir:

Gráfico mostra o pico de armazenamento (5) do Sistema Cantareira de 2010 a 2020; dados foram analisados pelo professor Pedro Côrtes (IEE/USP) — Foto: G1

Gráfico mostra o pico de armazenamento (5) do Sistema Cantareira de 2010 a 2020; dados foram analisados pelo professor Pedro Côrtes (IEE/USP) — Foto: G1

Nos anos de 2010 e 2011, por exemplo, o nível ascendia para valores acima de 90%. Depois da crise hídrica, ele mal ultrapassa os 60% de volume armazenado, mesmo contando com uma fonte adicional e um sistema de gestão mais econômico feito pela Sabesp.

Em nota, a Sabesp disse que não há risco de desabastecimento na região metropolitana de São Paulo neste momento, mas não respondeu se há risco em 2022.

A Companhia informa que a queda no nível das represas é normal nesta época do ano devido ao período de estiagem e ao volume baixo de chuvas, e a projeção da Companhia aponta níveis satisfatórios para passar pela estiagem (até setembro).

Desde a crise hídrica de 2014 e 2015, a Companhia realizou uma série de obras que também permitiram diminuir a dependência do Cantareira. Leia a nota completa no final dessa reportagem.

Pior seca em 91 anos

O déficit de chuvas não ocorre apenas na região metropolitana de São Paulo. Cinco estados brasileiros, entre eles São Paulo, enfrentam o que já é considerada a pior seca em 91 anos, de acordo com um comitê de órgãos do governo federal, que emitiu pela primeira vez na história um alerta de emergência hídrica para o período de junho a setembro.

O déficit de chuvas atual já é considerado severo, segundo Sistema Nacional de Meteorologia (SNM), que representa o comitê de órgãos do governo federal. O alerta emitido vale para os estados que se localizam na bacia do Rio Paraná: São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul e Paraná.

Na região central do Brasil, em hidroelétricas como Serra da Mesa, Emborcação, Furnas e Nova Ponte, a quantidade de água caiu consideravelmente nos últimos oito a dez anos. Essas hidroelétricas têm operado com um nível médio mais baixo do que aquele verificado antes de 2012.

Na hidroelétrica Nova Ponte, por exemplo, a média de volume de água armazenado era de 80,3% da capacidade entre 2005 a 2013. Já de 2013 a 2021, a média é de 27,2% (veja os gráficos).